A explicação da ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
E a saudade é tudo ser igual. 

Daniel Faria, no livro Poesia.

E quando desaparecer, gostava de levar tudo comigo no mar. É que eu sou da água, todos sabem disso.

Não me tirem tudo de mim. Se a morte anda por aqui, nada lhe daria mais prazer.

Deixem-me qualquer coisa de mim.

Preciso das minhas mãos inteiras, lavadas ou sujas, não importa. Preciso delas. Para acariciar as crianças, o papel, os amigos, o amor quando ele deixa. Para me acariciar a mim, para me abraçar à falta de abraços. Sim, eu abraço-me. Não só quando choro, mas quando preciso de paz.

Deixem-me de mim, alguma coisa para mim.

Patrícia Baltazar, no livro A RH - (SANGUIS LANGUENS).

Aprender a largar

Vi um filme em que havia um balão que subitamente e inesperadamente encheu e desatou a subir ares fora. As pessoas que seguravam os cabos não largaram e foram arrebatadas e a maior parte delas não tinha QI de sobrevivência suficiente que lhes permitisse largar a tempo. Segundos depois estão já, a trezentos metros do chão, sessenta pessoas. Os que não largaram a corda caíram a mil ou a mil e quinhentos metros do chão. Uma lição fundamental em sobrevivência é aprender a largar.

Burroughs citado por Gonçalo M. Tavares, em Atlas do Corpo e da Imaginação. 

Não preciso do teu louvor 
para sobreviver. Eu já cá estava
antes de tu chegares, antes
sequer de teres plantado um jardim. 
E hei-de estar aqui quando nada mais
houver, só o sol e a lua e o mar e o vasto campo.
Eu serei o campo.

Louise Glück, no livro A Íris Selvagem.

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo

Daniel Faria, no livro POESIA.

Nascer todas as manhãs

Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, em Diário (1982).

Definição

vida (rio sem nascente que corre infindavelmente para mar nenhum).

William Somerset, em Servidão Humana.

esconder-me lá

Escrever um poema
escavar uma toca.

Adília Lopes, em Manhã.

Epitáfio de Domingo

Se eu desaparecer hoje

E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado

a escrever desde a ponta da língua à légua mais distante 

da minha vida,

diz que compreendi.

Diz que sei que nada está onde é certo estar

Que o amor súbito é a escada para o entendimento

Diz que fui ar azul sobre campos de secura

Estrada recta ao infinito, entre oliveiras

um acidente ao longe

Que provei toda a sede quando engoli os homens

Que queimei alegremente no ácido das palavras

Que tombei em ricochete para que me vissem

E que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre

Que corri por hospícios de olhos fechados

e a boca às avessas

Que vivi mais ao alto do que em mundo plano

e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano

Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém

Que fui o halo frio que preenchi com esta pena

Pela minha ausência

E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,

Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas

Que te agradeço ter-te oferecido lírios

Que me reduziste o nojo da espécie

Diz que eu, fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:

- quanto em mim fui que não vivi

quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje

Quando me conheceste já eu não existia

e tu sabes que essas saudades que vais tendo

são as minhas.

Cláudia R. Sampaio, no livro Outro nome para a solidão.

Mendiga voz

E ainda me atrevo a amar
o som da luz a uma hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.
No meu olhar já perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.

Alejandra Pizarnick, em Antologia Poética.