Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
E a saudade é tudo ser igual.
Daniel Faria, no livro Poesia.
A explicação da ausência
E quando desaparecer, gostava de levar tudo comigo no mar. É que eu sou da água, todos sabem disso.
Não me tirem tudo de mim. Se a morte anda por aqui, nada lhe daria mais prazer.
Deixem-me qualquer coisa de mim.
Preciso das minhas mãos inteiras, lavadas ou sujas, não importa. Preciso delas. Para acariciar as crianças, o papel, os amigos, o amor quando ele deixa. Para me acariciar a mim, para me abraçar à falta de abraços. Sim, eu abraço-me. Não só quando choro, mas quando preciso de paz.
Deixem-me de mim, alguma coisa para mim.
Patrícia Baltazar, no livro A RH - (SANGUIS LANGUENS).
Aprender a largar
Burroughs citado por Gonçalo M. Tavares, em Atlas do Corpo e da Imaginação.
Nascer todas as manhãs
Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.
Miguel Torga, em Diário (1982).
Definição
vida (rio sem nascente que corre infindavelmente para mar nenhum).
William Somerset, em Servidão Humana.
Epitáfio de Domingo
Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua à légua mais distante
da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento
Diz que fui ar azul sobre campos de secura
Estrada recta ao infinito, entre oliveiras
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
E que, quando me viram, me ergui animal
Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura
Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
Pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio
Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu, fui eu
Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
- quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?
Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes que essas saudades que vais tendo
são as minhas.
Cláudia R. Sampaio, no livro Outro nome para a solidão.
Mendiga voz
E ainda me atrevo a amar
o som da luz a uma hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.
No meu olhar já perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.
Alejandra Pizarnick, em Antologia Poética.