Cresci num lugar rodeado pela floresta e pelo campo. À noite, os pirilampos criavam uma luz intermitente na escuridão e a minha mãe dizia que, se conseguíssemos tapar um deles com um copo, o pirilampo transformava-se numa moeda. Soa a uma adaptação da história da fada dos dentes, mas esta é (definitivamente) mais bonita.
Eu sabia que os pirilampos eram estrelas que não tinham encontrado o seu espaço no céu. Acreditava que sim. Escrevê-lo agora é uma forma de acreditar novamente: os pirilampos são estrelas que não encontram o seu espaço no céu.
A consciência da vida
O Zé contou-me que lhe colocaram uma válvula no coração e que, durante a noite, quando o silêncio se instala no quarto, consegue escutá-la a funcionar. É uma pena, Zé, que a ciência ainda não tenha encontrado forma de substituir o tic-tac por melodias mais agradáveis. Gosto de imaginar que um dia terás cotovias a cantar no teu coração.
Zé, há uma coisa que me fascina nesse barulho que te sai do peito: podes deitar-te e adormecer, todos os dias, com a consciência plena de que ainda estás vivo.
A arte, segundo Al Berto
Escreveu assim, em Lunário:
“E não pintamos, nem escrevemos ou fotografamos para nos salvar, ou então é só por isso que o fazemos. De qualquer maneira, sabemos que se não o fizermos estamos mais rapidamente perdidos, e é tudo… Mas, por outro lado, deparar com a precariedade da vida, e com a inquietante perenidade dos vestígios que nos sobreviverão, torna-se muito doloroso (…) Sabes, Nému… acho que seria sedutor se o fim do corpo se processasse de outro modo, não pelo apodrecimento, mas sim pelo regresso ao que ficou registado nos textos e nas fotografias e nas pinturas; conforme recuássemos, a escrita e as imagens desapareceriam… Atravessaríamos assim a nossa própria memória e apagar-nos-íamos no início dela.”, pág.144.
Encontramo-nos noutro sítio
Não há uma coisa que seja, em si mesma, totalmente certa ou errada. Existem perspectivas, ângulos e ideias. Como disse Rumi: “Beyond all ideas of right and wrong there is a field. I will be meeting you there.”
Telenovelas brasileiras
Há uma memória que guardo num lugar muito especial. Quando era criança, assistia às telenovelas brasileiras na companhia da minha mãe. Deitava-me ao lado dela, na cama dos meus pais, e deliciava-me a ver O Beijo do vampiro, Laços de Família, As filhas da mãe, Porto dos Milagres, Terra Nostra e outras. Era o esconderijo mais seguro do planeta.
Desde cedo aprendi, porque a minha mãe me ensinou, que existem apenas duas coisas capazes de nos salvar: o amor e a ficção.
Desde cedo aprendi, porque a minha mãe me ensinou, que existem apenas duas coisas capazes de nos salvar: o amor e a ficção.
Já tudo foi escrito
É uma frase que se lê e ouve muito: a teoria de que já existe tudo e a ideia de que, fatalmente, estamos impedidos de criar algo novo.
A Biblioteca de Babel é um texto muito conhecido de Borges, em que ele se refere ao Universo como sendo uma Biblioteca, e diz, a certa altura, algo que me interessa muito: “não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos.“
A Biblioteca de Babel é um texto muito conhecido de Borges, em que ele se refere ao Universo como sendo uma Biblioteca, e diz, a certa altura, algo que me interessa muito: “não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos.“
Uma questão de minutos
No livro Ficções, da autoria de Borges, há uma referência (em rodapé) à teoria que Russell escreveu no seu livro The Analysis of Mind, sugerindo que o mundo foi criado há poucos minutos e que, consequentemente, o passado se trata de uma ilusão. Resta-me apenas dizer, porque só estou aqui há cerca de dois ou três minutos: sejam bem-vindos.
Risco de perder a poesia
Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser, escreve que o nosso cérebro contém uma área especial que nos permite lembrar de tudo aquilo que nos faz bem - coisas que nos tocam. É assim que, por exemplo, surge o amor. Essa área tem o nome de Poetic memory.
No conhecido filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind, que conta com a participação de Jim Carrey, parece haver uma tentativa de apagar alguma dessa informação. Tenta-se, deliberadamente e fantasiosamente, eliminar o amor.
Nunca me deitei num bloco operatório, mas é provável que um dia aconteça. Vou lembrar-me de pedir para terem muito cuidado, todas as cirurgias comportam algum risco e eu não quero que, por engano, mexam na minha poesia.
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