My moon in the night sky, with pale eyes
And pale skin and long hair covering her naked body
And sometimes she's laughing and sometimes she's crying
And sometimes the moon is talking to nobody
And there's a madness in her and a madness in me.



"Our wedding was small but beautiful, Sama. The sound of our songs was louder than the bombs falling outside."

For Sama (2019)
"Paga-me um café e conto-te
a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"

José Tolentino Mendonça, em Baldios. 

É a história que nos domina, e não nós a ela. Dia e noite viajamos dentro dela e fazemos tudo o que tem de ser feito; barbeamo-nos, comemos, amamos, lemos livros, exercemos uma profissão, como se as nossas quatro paredes estivessem imóveis, quando o inquietante de toda essa história é que as paredes viajam sem que nós demos por isso, e projectam os seus carris como longos fios, curvos e tacteantes, e nós não sabemos para onde. E ainda por cima, o que nós gostaríamos era de pertencer também às forças que determinam o andamento do comboio do tempo. É um papel muito pouco claro, e quando, após uma pausa mais longa, olhamos lá para fora, acontece que a paisagem se transformou: o que passa a correr, passa porque não pode deixar de o fazer.

Robert Musil, em O homem sem qualidades.

Pudéssemos ser como as estrelas
e partilharmos a solidão
através da luz
e marcarmos presença
apesar da lonjura.
Porque o amor é o que acontece
quando simplesmente
estamos. 

D.M.

Nenhuma mudança positiva pode ocorrer enquanto se agarrar ao pensamento de que a razão pela qual não vive como quer é exterior a si mesmo. (...) Você e só você é responsável pelo ponto em que se encontra a sua vida, pelas traves-mestras que a sustentam, dependendo inteiramente de si mudar aquilo que não o faz feliz. (...) Crie um destino que seja capaz de amar. 

Irvin D. Yalom, em De olhos fixos no Sol.

Talvez se escutasses
eu te contasse a minha vida.
Mas assim ficas só a saber que
tal como todas as outras
ela é relativamente curta.

D.M

Jamais esqueceremos alguém 
que nos fez
cair.

Jamais esqueceremos o poema
que nos
levantou. 

D.M 

Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia de construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas que gosto, nunca às que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que na vida se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
— e é talvez uma moral —
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. 
Se chegar lá de noite, montarei acampamento.

Gonçalo M. Tavares, no poema Energia e Ética.
Às vezes me volta esse pensamento: ando perdido no mundo, na imensidão duma profunda madrugada: minhas estórias onde procuro morrer fosse um louva-a-deus nos atos carnais do amor: atrevimento de morte, estória e tristeza no acabar de contar. Te pus, te ponho: os olhos brilham mais é na escuridão; pirilampo espera noite para ser alguém; peixe fica seco é dentro d'água, fora dela é que ele transpira de morte; etecetera, muadiê, pra te dizer: de noite é que perco a vergonha de ser eu mesmo e abro as torneiras do imaginado: meu coração de ser assim, contador. Pouca inventice, transformo só o material para lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool para fazer castelos das areias em cima das estórias…, e o mô espelho são as madrugadas.

Uma noite, quantas madrugadas tem? Andas a contar? Eu não. Lhes apanho só, conforme lhes vejo e sinto. Atrevo: uma só noite tem bué de madrugadas; cada uma dessas madrugadas tem bué de brilhos. Confesso-me aqui, nos lábios da sinceridade: gosto muito disso — acreditar no impossível das palavras, lhes maltratar no português delas, ser livre na boca das estórias e me deixar tar aqui, sentado dentro de mim, abismático. E sonhar!, sonhar até chegar nesse quintal onde dentro de mim nascem barulhos e não só: nascem brilhos. Vejo búzios que riem à toa e aprendo: posso descansar as vozes como se fossem conchas de pousar na areia depois de lhes apanhar numa noite de lua brilhante. Depois do barulho das vozes os búzios se calam e eu, no respeito, me calo também.

Ondjaki, em Quantas madrugadas tem a noite.