Muitas pessoas fartam-se de fazer e ver sempre a mesma coisa e são assim levadas a sentir, não ódio, mas náusea pela vida. Aliás, até a própria filosofia nos pode conduzir a essa mesma náusea quando nos diz: “até quando aguentaremos sempre o mesmo? Nunca faremos outra coisa senão acordar e adormecer, comer e sentir fome, ter frio e calor? Coisa alguma tem um termo, está tudo urdido em círculo, tudo se sucede alternadamente sem parar: a noite põe termo ao dia, e o dia à noite, o verão vai findar no outono, ao outono segue-se o inverno, que por seu turno é destronado pela primavera; tudo passa para regressar novamente. Não realizamos nada de novo, não vemos nada de novo: e aqui reside por vezes a causa da náusea.”
Séneca, em Cartas a Lucílio.
Os filões dos metais ligeiros encontram-se à superfície, mas os metais mais preciosos são aqueles cujos veios se encontram mais fundo e que, por isso mesmo, compensam muito mais quem os explora (…)
age da única maneira possível para obteres a felicidade: repele e despreza aqueles bens que só brilham por fora, que dependem das promessas de fulano ou das benesses de cicrano. Faz do verdadeiro bem o teu alvo, busca a alegria dentro de ti (…)
O corpo alicia-nos para prazeres ilusórios, prazeres que nos repugnam mal terminam.
Séneca, em Cartas a Lucílio
Quando os fascistas chegaram ao poder em Itália, em 1922, um dos primeiros sucessos que proclamaram ao mundo foi o de terem conseguido que os comboios passassem a andar a horas. Provavelmente no ano seguinte, em Portugal, o poeta Fernando Pessoa escrevinhou o seguinte:
A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; o seu pai vive em Roma. Os fascistas matam o seu pai mas você tem a certeza de que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.
Rui Tavares, em Esquerda e Direita.
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