Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta. Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva.

Clarice Lispector, em A hora da estrela.

 


Scenes from a marriage (1974), dir. Ingmar Bergman.

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.

Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.

E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.

E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

Maria do Rosário Pedreira, em Poesia Reunida.

O meu vizinho sofre de
Alzheimer.
Às vezes vejo-o,
mas sinto que ele
não me vê.
Nos dias difíceis,
em que pareço querer
esquecer t
udo,
penso:
a vida é dura,
a vida dói.
Mas será sempre melhor
lembrar do que
esquecer.

D.M



Eu não quero mudar o mundo.
Não tenho tempo para isso.
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel:
empurra primeiro para um lado,
foi força demais,
empurra então para o outro lado,
agora com força de menos,
depois mais um pequeno toque para lá
e um ainda mais pequeno toque para lá,
e agora sim:
o móvel está no lugar.
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam
lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver?

Os copos todos partidos. Que aborrecimento.
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro.

Gonçalo M. Tavares, em O homem ou é tonto ou é mulher.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.

Maria Gabriela Llansol, em O começo de um livro é precioso.

 


I’m gonna take my trip. I’m gonna go back to Alaska again, because of some good memories. And, um, just do what I have to do. I have this book called Final Exit by Dr. Kevorkian. Some people call him Dr. Death. And it’s like, various ways that you can end your life if you need to. And, um, it’s kind of like a recipe. I have it, if I have to fall back on it for some ideas, but I’m not gonna spend any more time indoors in a hospital. No, thanks. … I’m gonna be 75 this year and I think I’ve lived a pretty good life. I’ve seen some really neat things, kayaking, all those places. And, you know, moose in the wild. A moose family on a river in Idaho. Um… And big, white pelicans landin’ just six feet over my kayak on a lake in Colorado. Or, uh… um, come around a bend, was a cliff, and find hundreds and hundreds of swallow nests on the wall of the cliff. And the swallows flyin’ all around. And reflecting in the water so it looks like I’m flying with the swallows and they’re under me, and over me, and all around me. And the little babies are hatchin’ out and egg shells are fallin’ out of the nests, landin’ on the water and floatin’ on the water. These little white shells. It’s like, well, it’s just so awesome. I felt like I’d done enough. My life was complete. If I died right then, that moment, it’d be perfectly fine.

Nomadland, de Chloé Zhao (2020)


No fundo, são muito poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos comovem o coração, e menos
ainda as que o comovem muito tempo.
No fundo, são pouquíssimas as coisas
que importam de verdade na vida:
poder amar alguém e que nos amem,
nunca morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista, em Conta-mo outra vez. 

 eu achava que queria ser poeta, mas no fundo eu queria ser poema.

Enrique Vila-Matas, em Bartleby & Companhia. 


Cuidamos uns dos outros. 
Somos pássaros que vigiam 
os ninhos. 
Mas depois temos de voar. 

D.M

Imagem: fotografia que integra o livro Solitude of Ravens, de Masahisa Fukase.